Caeiro, também aqui, é o mestre. Este blogue é mantido por Possidónio Cachapa e todos os que acham por bem participar. A blogar desde 2003.
12 de janeiro de 2006
Sobre o assunto abaixo referido, o Rui Zink escreveu e enviou a sua opinião:
"Muito barulho por nada
Soube pelos jornais que uma nova equipa vai dirigir o Teatro Nacional ? por algum tempo. Nestas coisas de cultura, como noutras, é bom que toda e qualquer gestão seja apenas "por algum tempo". Essa equipa, tal como a que ora finda o seu consulado, é constituída por pessoas que, pela sua competência, pelo seu currículo, pelo seu amor ao teatro, me merecem o respeito ? e deviam merecer aos outros.
Pelo que li, a nova equipa tem por projecto central promover e divulgar o teatro português ? isto, supunha eu, devia ser uma evidência. No entanto, parece que causa escândalo a alguns Senhores da Guerra. Um publicista que talvez um dia dê um bom ministro da Cultura (mas por enquanto ainda não o é) escreveu mesmo, sem pudor, que "do Teatro Nacional são banidos Eurípedes, Shakespeare, Racine, Strindberg, Tchekov, Brecht, Pinter e Shakespeare" (Augusto M. Seabra., Público, 8/1).
Compreende-se que cada pessoa defenda os seus amigos e interesses com paixão ? mas mentir é feio e insultar a dignidade profissional dos outros também. E sim, isso sim, é muito mau teatro. .
Compreende-se que cada pessoa defenda os seus amigos e interesses com paixão ? mas mentir é feio e insultar a dignidade profissional dos outros também. E sim, isso sim, é muito mau teatro.
Rui Zink"
10 de janeiro de 2006

Parece que, apesar do frio, um grupo de "artistas" resolveu reunir-se em frente ao Nacional. Como não li o Público, não sei se a coisa resultou ou não. Mas lá convocação por sms, houve...
Para os amigos quem moram longe façamos uma descrição simples:
Quando os governos mudam (no caso português, "alternam") o novo ministro muda toda a gente que esteja à frente dos departamentos, secretarias, teatros, direcções gerais e por aí fora. É por isso que tanta gente aparece nas campanhas políticas, apoia-se o partido X e depois ele paga com uma panela cheia se for eleito. Normalmente na cultura (sobretudo, e por tradição, a direita portuguesa) metem-se os que não servem para mais nada. Por isso temos os ministros que temos e os secretários que temos.
O governo actual resolveu mudar o director de um peso inútil (não no sentido da necessidade, mas sim no dos resultados práticos) a que se convencionou chamar "Teatro Nacional". Tinha até à data um cenógrafo, suponho, ligado ou do apreço do PSD e agora foi nomeado outro director teatral para essa função. Não sei se a nomeação foi política, de gosto ou de utilidade. A praxis remete geralmente para o primeiro caso. Não sei. Mas sei que a pessoa nomeada foi tratada publicamente por "merceeiro", "Quim Barreiros" (um cantor brega/pimba). Não sei em que se basearam para mimosear um colega dessa forma. Suponho que foi na superioridade intelectual do redactor/emissor.
Quando olhamos mais de perto os intervenientes neste "protesto" vemos que muitos deles fazem parte dos "artistas", unidos pelo facto de terem projectos a correr, ou corridos (do) no Nacional. Outros são amigos dos amigos do antigo director. Muitos são actores a precisar de trabalho e que avistam nesta mudança a perda de trabalhos futuros. Não especulo, baseio-me em casos concretos.
Um dos mais virulentos é precisamente alguém que vive pendurado do bolso dos contribuintes há décadas. As suas opções estéticas têm-nos massacrado a paciência e o erário. E, pela força do lobby suponho que o continuarão a fazer.
Esta ministra não é competente ou não deu até agora provas disso. O Carlos Fragateiro poderá ter no seu c.v. de director teatral opções discutiveis (o caso das desinteressantíssimas peças de Freitas do Amaral, para não ir mais longe), mas manteve o seu teatro cheio de público, preocupou-se com o texto dramático e deu sempre uma atenção privilegiada aos autores nacionais. Além do mais, e ao contrário do A. Lagarto, não ficou com o rabo sentado em casa quando era convidado para ir assistir a novas propostas noutros locais: ia, mesmo quando saía pouco entusiasmado com o resultado. Isso, eu vi. Não dá preferência aos pintéres, fingindo que descobriu a pólvora e que esse acto faz dele um génio.Não precisa: já cá andam outros a fazê-lo.
ps: Não, não vou ter uma peça representada em breve no Nacional. E, não, não sou amigo do Fragateiro. E, não, não acredito em uniões desinteressadas de partes interessadas. Esclarecido?
6 de janeiro de 2006
Do Brasil, via meu amigo Luiz Ruffato ("Eles eram muitos cavalos", a sair em Portugal em breve, entre outros títulos), chega-me a notícia de que o jornal literário RASCUNHO, o único jornal do género no país, chegou à net.
Entre outras secções, conta com "Oceanos", onde podemos ler (a lista cresce) textos de autores de língua portuguesa, não-brasileiros.
Nâo será tão bonito como em papel (um formato grande e, como diria o Carlos Pinto Coelho, "gostoso"), mas mais acessível para nós.
Aqui. Basta clicar.
Ontem, discordava de mim um amigo meu (sócio de uma pequena empresa) quando eu defendia a obrigação social das empresas. Parece-me lógico que quando um grupo tira de uma comunidade uma grande quantidade de dinheiro deva contribuir em troca para o bem-estar e educação dessa mesma comunidade. Seria até lógico: uma população educada e saudável tem, geralmente, mais condições financeiras para consumir. Seria, digo.
O que se verifica na prática é que os benefícios circulam numa só direcção. Uns produzem e lucram. Outros consomem e pagam. Esta distribuição de tarefas estaria bem se não fosse escandalosamente desiquilibrada. Se não estivessemos a falar de um país que dispõe de poucos recursos e onde a cultura, a saúde e a educação têm um longo caminho pela frente.
O meu amigo defendia que se as empresas ajudassem as comunidades obteriam disso benefícios para a sua imagem, aumentando a sua competitividade. À pergunta, "quantas empresas assim conheces?", só me pode responder com o nome de 2 (e ainda assim, discutíveis...).
Não vivemos num país generoso. Gostaríamos de viver, mas isso não acontece. A riqueza é distribuída de forma razoável quando a legislação a isso obriga. E, de qualquer modo, não há grande espaço para nos lembrarmos dos outros quando somos diariamente bombardeados com a palavra "crise", ou com frases como "competir de qualquer forma para não ir ao fundo".
Se os nossos políticos não andassem preocupados com manterem os tachos sem fazer ondas, poderiam começar a pensar em formas de obrigar as empresas mais lucrativas a desenvolver projectos que ajudem quem os cerca e consome os seus produtos. Aposto que se fosse obrigatório não tardaríamos a ver patrões com ar satisfeito a posar ao lado dos que menos podem ou têm.
Seria outra vez Natal, no fundo... ;)
3 de janeiro de 2006
Todos os dias saem leis em Espanha que se nos remetem para o atraso confuso em que patinamos. Por mais que tenhamos Aljubarrota entalada na garganta, somos forçados a ver que a Espanha do ponto de vista da democracia e do progresso social não está aqui ao lado: está lá à frente.
Hoje foi promulgada a lei que remete o acto de fumar para o ar livre. Os espanhóis já não podem encher a comida das outras pessoas de fumo, ou afastar por incómodo os não-fumadores dos lugares públicos e fechados. Ninguém está proibido de fumar. Mas vai ter de o fazer onde não chateie.

Cá não, claro.
"Contactado pelo DN, o porta-voz do Ministério da Saúde explicou que o trabalho de revisão do diploma da anterior tutela "está a ser ultimado". Tabaqueiras, restaurantes e discotecas estão a ser consultados e a Direcção-Geral da Saúde "já concluiu a sua parte do trabalho". Não há pressa? "Pressa há, e o documento já podia estar pronto, mas a lei antitabaco envolve a consulta de muitos parceiros.".
Um dos parceiros, a Tabaqueira apresentou um lucro de perto de 70 milhões de euros. Os seus administradores ganham milhares de contos de salários e alcavalas. Pergunto a mim próprio que conselho terão eles para dar ao ministério da saúde.
Entretanto, o mesmo ministério já anunciou que os miúdos que vemos aos magotes a fumar à frente das escolas e nos centros comerciais vão ter de pedir aos amigos com mais de 18 anos que lhe comprem os cigarros. Os de 16 já não podem. Parece que é uma ordem lá da Europa...

PARA O CARLOS, GRANDE OBSERVADOR DE BATALHAS NA BAÍA DE TODOS OS SANTOS
Parece mentira, mas consegui fazer uma moqueca decente, em Portugal.
Sem tacho de barro, é certo. E o peixe era do supermercado, ranhosito, benza-o Deus. Mas ainda assim, ficou comestível.
Considera isto uma nova rendição portuguesa, frente à ilha de Iparica. :)
Durante todo o tempo em que estive em viagem pensei em colocar um agradecimento. Ao Gonçalo Cadilhe pelo seu livro "Planisfério Pessoal". Graças aos relatos, que tinha acompanhado parcialmente no Expresso, pude antecipar o sentimento de solidão que atinge o viajante ao fim das primeiras semanas. Num quarto ranhoso, nos confins do Pará, lembrei-me que a vontade de atirar com tudo ao ar e voltar para o quentinho (neste caso, fresquinho...) era natural e acontecia a todos. Também foi por ele que cheguei ao Lonely Planet que me foi da maior utilidade (com as respectivas falhas e interpretações americanas sobre o que é um "hotel de charme", claro).
E também me fez acreditar de que seria capaz de atravessar com muito pouco dinheiro um país do tamanho de um continente.
Mas o mais importante foi a velha dica de que o mais importante são as pessoas.
O resultado foi uma mala cheia de amigos e de recordações de conversas em volta de uma cerveja ou de um prato de "frango à passarinho".
Quando ele deixar de estar na moda e as meninas da Sic e das revistas passarem à novidade seguinte, ele que guarde o agradecimento deste leitor regressado.
2 de janeiro de 2006

SALVA, É BONITO E NÃO ESTÁ CARO!
Com o cardeal de Lisboa a condenar experiências que metam embriões excedentários, na mesma linha em que no Renascimento se proibia a dissecação dos corpos para estudo, em que a Santa Casa da Misericórdia usa o dinheiro do jogo (euromilhões) para se promover em corridas de carros e o nosso maior banco privado tem ligações directas ao Vaticano, precisamos mesmo de conselho e ajuda.
Por isso, recomendo este livro ( $54.95 + portes de envio) ,um Missal Diário, de 1962 (antes da desgraça que foi o Concílio Vaticano II), que segue directamente as indicações do Concílio de Trento.
Entre outras curiosidades poderemos aprender a rezar missa nas dioceses do Estados Unidos (o que dizer que não leve a processo e a idade indicada para os "coroinhas"... imagino eu) e um capítulo especial à "Igreja das Mulheres" (??).
Infelizmente, apesar de ser redigido segundo a teologia tridentina, não encontramos nenhum capítulo dedicado à "Queima e Destruição Por Todos Os Meios De Descrentes Naquilo Que Dizemos". Uma falha que se espera resolvida nos próximos anos.
Mais informações aqui
Mais um que chega. Os anos sempre chegam e, o que é pior, passam.
Olhando para trás, e achando que passou tão rápido que não tive tempo de fazer nada de útil, descubro que escrevi 3 pequenas peças de teatro (uma das quais levada à cena - outra experiência, a encenação), co-escrevi e realizei 2 curtas-metragens, participei na selecção do melhor festival português de cinema, o Indie, publiquei um livro de crónicas, atravessei todo o Brasil de mochila às costas (quase sem dinheiro, claro, ou não fosse escritor na terra do triunfo do Light), iniciei a redacção final de um novo romance e trabalhei para que retribuir o afecto daqueles que fazem o favor de me gostar de mim. Entre outras coisas.
Não foi mau.
Para 2006, não peço muito: que o destino me mantenha perto dos meus e que estes se sintam felizes por isso, terminar de forma honesta a escrita deste livro e fazer um milhão de coisas não previstas mas que justifiquem o facto de me recusar a fazer "méééé´..." enquanto corro para o precipício.
Bom ano a todos.
30 de dezembro de 2005
Ontem, vi numa entrevista na tv, a modelo Diana Pereira, ex-lolita, transformada agora numa mulher jovem e inteligente, dizer que apoiava Cavaco Silva por ter uma "pequenina esperança de que ele pudesse fazer alguma coisa por isto". Isto é o país. Foi o seu único movimento menos feliz, nesta entrevista, e nem sequer por culpa dela. É apenas nova. Ainda não descobriu que os políticos são todos farinha do mesmo saco. Talvez isto a ajude:
Alguns posts abaixo referi que o projecto inenarrável de dislate de apoio ao filme do Carlos Saura pela EGEAC, Câmara Municipal de Lisboa, tinha sido detido pela oposição. Bem, o vereador da "cultura" voltou à carga, a coisa voltou a ser votada e aprovada.
A oposição, Carrilho, cdus e por aí fora, ABSTIVERAM-SE. Deixou de lhes parecer estranho que em tempo de crise, numa altura em que as artes perderam a quase totalidade dos apoios e os artistas portugueses lutam com as maiores dificuldades para sobreviver, a Câmara de Lisboa pegue em 1, 2 milhões de euros (perto de 250 mil contos) sejam oferecido ao velho "hermano". Mais IVA, por ser a empresa camarária (se for de 21%, será qualquer coisa como 252 00 0euros).
Como em todas as decisões enigmáticas, poderíamos usar a expressão "cherchez la femme", quem vai lucrar com isto? Porvavelmente alguém irá. E espero até que haja cumplicidades que tirem corrupto proveito desta decisão. Porque no caso contrário será apenas estupidez e delapidação do erário público. E isso ainda seria mais triste.
Meus amigos, se isto é normal, abram-me a porta do autocarro dos anormais que eu fujo com vocês.
Daí, minha querida Diana, que o teu Cavaco, por mais simpático que te pareça, não possa (nem provavelmente pretenda) fazer qualquer coisa por isto. Pelo nosso buraquinho com vista. É apenas mais um deles.
17 de dezembro de 2005

NATAL
Como vou estar em recolhimento natalício-escriturante, na província e provavelmente sem net, aproveito para mandar um abraço a todos. Amigos dos dois lados do Atlântico e dos dois lados do ecrã do computador. Aos que visitam este blogue desde a primeira hora e aos mais tardios.
Tranquilidade. Ao menos por uns dias.
16 de dezembro de 2005

UM MILHÃOZINHO PARA O TIO CARLOS
Fui poupado à visão de ver a lista do psd ser reeleita para a câmara de Lisboa. Depois de aturarmos o Santana, recebemos o sem-ideiasCarmona.
O psd tem um problema com a cultura: não tem ninguém com interesse que seja filiado ou simpatizante. Nem um.
Aliás tem dois problemas, sendo o segundo o facto de achar que a cultura é uma jóia ormanental. Uma coisa decorativa e inútil. Daí que permita que estas zonas sejam chefiadas por aqueles que não servem para mais nada. Os brainless do aparelho. Os ornamentais. O executivo anterior meteu lá uma senhora loura e argolada de que já nem me lembro o nome.
Este meteu o Amaral Lopes. Que é um senhor simpático. Pena não perceber a diferença entre a ponta de um sapato italiano e um filme romeno.
Neste caso, a diferença entre apoiar o cinema e estourar 1, 2 milhoes de euros com um realizador espanhol. Para seu desgosto, em reunião do executivo a oposição disse Não à ideia peregrina de pagar um filme sobre Lisboa com o dinheiro dos contribuintes. Assim, sem concurso.
De onde veio esta brilhante ideia quando o referido autarca ( e ex-secretário de estado, benza-o deus) apregoa que não tem dinheiro porque as sardinhas das marchas comem a maior parte do orçamento, é um mistério. Lembrou-se. Pronto.
Pior do que ter no departamento cultural um psd sem ideias é ter um com ideias.
Esta, pavorosa, foi chumbada. Mas outras virão. Podem ter a certeza.
O jornalista colocou hoje um ponto final no trabalho que mantinha Há 14 anos com o Público. Muitos fomos os que nos habituámos a comprar o jornal à sexta-feira para o ler (e, de vez em quando, pelo INIMIGO PÚBLICO).
Nem sempre concordo com as suas posições. Mas acredito que ele acredita no que afirma. Pelo menos naquele momento. E isso, numa terra de oportunistas e de aldrabões instalados, respeita-se. Por ser raro.
Aqui lhe deixo um abraço e me junto ao coro dos que acham que há menos uma razão para continuar a ler jornais.
Quando se confia um texto nosso para adaptação, seja ao teatro ou cinema, entregamos a coisa um bocadinho nas mãos de Deus. Isto é: seja o que o Dito quiser. Adaptar é transferir para um novo meio aquilo que provém de outro regido por diferentes regras. O que não é fácil.
Mas é também um olhor de um "leitor" sobre o que foi feito e a respectiva filtragem e recontrução da obra original.
A adaptação de José Rui Martins e do Trigo Limpo-ACERT foi uma encantadora surpresa. Conseguiram fazer o SEU espectáculo respeitando escrupulosamente o que tinha sido um livro.
Personagens como Sacha, o-dos-olhos-azuis, ganham uma tridimensionalidade que não deixa de emocionar o antigo leitor. As figuras das meretrizes descolam-se das folhas onde se inscrevia a Túlipa Negra e movem-se, cantam e fazem rir.
O trabalho dos actores é, na sua generalidade, bastante bom. Boas soluções de encenação foram encontradas para uma narrativa inicial muito longa e variadíssima no espaço e no tempo.
Também o trabalho de cenografia é formidável, inaugurando-se o espectáculo com uma cadeia feita de luz e fumo esteticamente formidável.
Chamada de antenção para a música feita por alguns dos nossos melhores músicos e cúmplices da companhia. Entre outros Zeca Medeiros (o realizador de Xailes Negros e músico premiado este ano com o troféu José Afonso) ou Carlos Guerreiro (Gaiteiros de Lisboa...).
Nenhum crítico, que eu visse, se dispôs a percorrer os 300 km desde a capital ou a hora de carro que separa o Porto. Mas espero que ainda o façam, ou perderão um belíssimo espectáculo.
E não falo por mim, que a noite de alegria de ontem foi da companhia teatral e do público convidado.
ps: também é maravilhoso ver esgotar salas de 300 lugares para ver teatro.
14 de dezembro de 2005

Estreia amanhã, a versão teatral do meu romance. Uma adaptação a cargo de José Rui Martins e do grupo ACERT - Trigo Limpo, sediado em Tondela.
Para quem mora na região fica o convite para a representação. Os outros terão de esperar pela digressão a efectuar em 2006.
Mais detalhes, aqui.

Portugal tem no consumo de tabaco um sério problema de saúde pública. Basta aterrar em Lisboa para se começar a sentir o cheiro. Depois avistamos as pessoas, em magotes, correndo para o primeiro sítio permitido e muitas nem isso respeitam. Fazer compras num centro comercial é ter a certeza de sermos obrigados a fumar vários maços. A experiência bem sucedida em vários países de restringir o fumo às zonas descobertas ou do domínio privado, nem sequer é tentada por aqui. É chata, vai contra uma dependência química enraízada e até é capaz de fazer perder alguns votos. Ninguém a vai apoiar publicamente, já que 90% dos jornalistas fumam e os deputados... parecem chaminés.
Dentro de alguns anos estaremos todos a pagar por esta negligência pública. Os contribuintes, com os impostos para pagar o miríade de maleitas associadas. Os fumadores-passivos, com cancros e enfermidades que nem sabem de onde lhes caíram.
Mas vai tudo bem, na terra do deixa-andar.
13 de dezembro de 2005

De volta a casa, vejo que está tudo muito diferente no país: O Malato e a loura continuam inenarráveis, na RTP, o Goucha e a loura não têm explicação, na TVI, a Fátima Lopes e o Donaldim entopem a Sic e por aí fora. Neste caso, nem as moscas mudaram.
Não assisti às eleições autárquicas, por isso só agora descobri que quase todos os arguidos por escandaleiras e corrupções foram eleitos de forma apoteótica. Como diria o Miguel S.Tavares isso só vem provar que cada cidade tem o que merece.
Gostaria de não estar para as presidenciais onde tudo se perfigura para ter um presidente gasolineiro que raramente tem dúvidas, nunca se engana e tem a sensibilidade de um elefante numa loja de louças no que toca às questões sociais.Só se for a poetisa da mulher que ajude à coisa. Desde que ela dedicou um poema ao Herman José, no programa em que este lambeu as botas ao político, que Portugal nunca mais foi o mesmo.
A hipótese B é um velhinho simpático, que já deu o que tinha a dar, entre charutos e aquela descontracção de quem viveu a maior parte da existência confortavelmente. Fez um bom trabalho, no seu jeito decorativo, mas já não há pachorra.
Ao meu lado dorme um gato que nem pensa nestas coisas. Ele é que tem razão. O resto é fogo de artifício. E do baratinho.
12 de dezembro de 2005
O meu celular/telemóvel ainda anuncia que estou fora. Mas não é verdade. Já tomei chá sobre o casario de Lisboa. Já o Natal ganhou algum sentido porque embrulhado em frio.
Trouxe comigo desta viagem a memória de tanta terra como muita gente não conseguiu ver. Do Maranhão ao Rio Grande do Sul, os Brasis quase todos avistei.
Esta viagem não teria sido possível sem a ajuda de tantos amigos. E esse foi o presente inesperado e valioso que o destino me deu. É graças a eles que eu reconheço o sotaque do interior da Bahia e sei distinguir um caruru de um acarajé. Ou encontrei o Araguaia das minhas leituras e soube que nas suas margens vivem tracajaras e iguanas. Nem sabia que existiu um dia um presidente mulherengo que teve o sonho de unir o Brasil no centro, no meio do mato, lá onde os pontos se cruzam e a poeira vermelha botou fogo nos olhos dos boiadeiros. Deram-me conhecimentos, amizade e um sentido da hospitalidade que julgava perdido.
Neste regresso a casa o meu coração está com eles: Carlos, Ronaldo, Alaore, Luiz, Jorge, Bárbara, Lélia, André e todos os outros que não tendo aqui o nome ganharam a minha estima e gratidão. Obrigado pelo tapete macio que me lançaram debaixo dos pés.
Sem vocês, nunca teria atravessado o vosso país-continente.
7 de dezembro de 2005
... No momento em que começo a escrever este post. E estou com uma dor de estômago, súbita e persistente. Daí que não dê para fazer balanço desta viagem que amanhã termina fisicamente (a aventura continua, mas agora de forma caseira, diante do computador e no frio português.
Aproveitei para me reconciliar com o Rio, indo a Santa Teresa, vendo os antigos casarões do início do século ( a que muitos cariocas adoram chamar "coloniais", esquecidos por certo da data da indendência do país-irmão - o mesmo tipo de esquecimento que leva colunistas de grandes jornais a incensarem livros escritos por estrangeiros, portadores da tese que D.João VI, a quem o Rio deve quase tudo o que o tornou maravilhoso, num cretino...). Claro que encontrei moradores a comentar que n noite anterior tiveram de se meter debaixo da cama por causa dos tiros. Mas isso é "normal", numa cidade refém da violência e que toma cerveja e fuma maconha até caír. Ou esquecer, o que é o mesmo.
Amanhã regresso ao país de onde saí. E, por uns tempos, não vou ser o mesmo.
5 de dezembro de 2005
iLHA GRANDe Deixámos para trás as favelas, as histórias de traficantes que se condenam mutuamente à morte, de praias encostadas aos morros carcereiros acusadores. E chega-se ao mar do oeste. A escuna a abarrotar leva música do nordeste dentro. Os gringos deixaram o cérebro para trás. E eu também que o tempo é de pacificar. E chega a Ilha que vive dos que chegam. E vem o mar e as ondas que misturam conchas e folhas da vegetacão antiga. Daquela que insistem em fazer desaparecer para enfiar campos de soja e dinheiro nos bolsos de fazendeiros e deputados, país fora. A vegetacão que aconchega montes em bico. Montes, não morros. Porque morro se tornou em plataforma de homem com fome. E este mar continua cheio de peixe. |